No outro dia quando me dirigia a casa de uma amiga, que por sinal mora numa das zonas mais ricas de Coimbra, onde se encontra a minha pastelaria favorita, aconteceu algo invulgar e ao mesmo tempo vulgar.Enquanto os pavões vagueavam de um lado para o outro como se o mundo lhe devesse gratidão, as galinhas ficavam com o olhar regalado por cada montra que enxergavam, mas lá no escuro e indiferente aos ricos olhares estava um pequeno arrumador de carros.
Olhei para ele, não devia conhecer mais de cinco “Primas Veras” e desconfio que também conheceria mal a restante família. O seu olhar verde e o cabelo palha poderiam certamente fazer dele um descendente da fragmentada potência soviética, isso claro, se o seu português não fosse correcto e fluente como pude ouvir.
Encostei, não tinha trocos, mesmo que os tivesse não lhos daria…perguntei-lhe se gostava de chocolate, acedeu com a cabeça.
Quando voltei com o merecido vencimento, um bolo brigadeiro todo apetitoso, ele recebeu com gratidão, afinal de contas era o pagamento da sua jorna. Naquele momento apeteceu-me dar-lhe conselhos, falar e falar, mas preferi baixar os braços, afinal de contas não tinha palavras para alguém que trabalhava deste tão tenra idade.
Encostado a um poste de electricidade estava o seu patrão, o pai, que através de indicações lá ia chulando o pequenote, talvez este não trabalhasse porque padecia de alguma doença, quem sabe de preguiça crónica. Apeteceu-me esmurra-lo, denuncia-lo, mas para quê, se o contrato social estava a ser tão eficaz para eles, e aos olhos de ouro que ali se regozijavam até estava a funcionar.
